Durante décadas, quando falávamos em HPV — Papilomavírus Humano —, o pensamento imediato era: câncer de colo do útero. Esse vínculo é real, importante e deve ser amplamente comunicado. Mas existe outro lado da epidemia que permanece invisível para a maioria das pessoas: o HPV hoje é a principal causa de câncer de orofaringe — região que inclui a base da língua, as amígdalas, o palato mole e a parte posterior da garganta — e está crescendo de forma alarmante, especialmente entre homens.
O dado é contundente: o HPV-16, um dos tipos mais agressivos do vírus, é responsável por 80 a 90% dos carcinomas espinocelulares de orofaringe HPV-positivos, segundo o Protocolo Clínico Multidisciplinar para Vacinação HPV9 no Brasil, publicado em 2026 pela Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia (ABPTGIC), com participação da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço.
E o que torna esse cenário ainda mais desafiador? Ao contrário do colo do útero — onde o Papanicolau permite o rastreamento precoce —, não existe nenhum método eficaz de rastreamento populacional para a orofaringe. Não há um ‘Papanicolau da garganta’. A única estratégia realmente eficaz disponível hoje é a prevenção. E a vacina é o centro dessa estratégia.
O que é a orofaringe e por que ela está no centro dessa discussão?
A orofaringe é a parte média da faringe, conectando a boca à parte superior do pescoço. Ela inclui a base da língua, as amígdalas palatinas, a parede posterior da faringe e o palato mole. É uma região essencial para funções vitais como deglutição, respiração e fala.
Os tumores de orofaringe costumam ser silenciosos nas fases iniciais. Em muitos casos, o primeiro sinal perceptível é um caroço no pescoço — que representa uma metástase linfonodal já estabelecida. Isso significa que, quando o paciente chega ao consultório, o tumor frequentemente já está em estágio avançado. Segundo dados do INCA (2026–2028), 80% dos cânceres de cabeça e pescoço são detectados em estágios avançados, com prognóstico significativamente pior.
Esse diagnóstico tardio é a principal razão pela qual a prevenção — e não o rastreamento — precisa ser a prioridade absoluta no manejo do câncer de orofaringe HPV-relacionado.
Como o HPV causa câncer de orofaringe?
O HPV é transmitido pelo contato com mucosas e pele infectadas. No contexto orofaríngeo, a principal via de transmissão é o contato sexual oral. O vírus infecta as células das mucosas da boca e da garganta, e em uma parte das pessoas infectadas — especialmente aquelas com tipos de alto risco, como o HPV-16 e o HPV-18 — o material genético viral se integra ao DNA das células do hospedeiro, desencadeando alterações que podem, ao longo de anos ou décadas, evoluir para câncer.
É importante compreender que a infecção pelo HPV é extremamente comum. Estima-se que a maioria das pessoas sexualmente ativas entre em contato com algum tipo do vírus ao longo da vida. Na maior parte dos casos, o sistema imunológico elimina o vírus espontaneamente, sem qualquer consequência. O problema ocorre quando a infecção persiste — e, nesse cenário, os tipos de alto risco representam um risco real de transformação maligna.
Por que o câncer de orofaringe está crescendo entre homens?
Enquanto a incidência de câncer de colo do útero tem diminuído progressivamente em países com programas de vacinação e rastreamento, o câncer de orofaringe HPV-relacionado segue uma trajetória oposta: está aumentando, e de forma desproporcional entre homens.
Há algumas razões para isso. Primeiro, historicamente a vacinação contra o HPV foi direcionada principalmente ao público feminino, deixando os homens desprotegidos. Segundo, não existe rastreamento para orofaringe — enquanto mulheres têm o Papanicolau como ferramenta de detecção precoce, os homens não contam com nenhum equivalente para essa região. Terceiro, a conscientização sobre o HPV masculino ainda é muito limitada: muitos homens simplesmente não sabem que podem desenvolver câncer relacionado ao vírus.
O resultado é que, hoje, o câncer de orofaringe HPV-positivo é significativamente mais comum em homens do que em mulheres — e essa disparidade só tende a aumentar sem intervenções preventivas efetivas.
A vacina HPV9: a principal arma de prevenção
A vacina nonavalente contra o HPV — conhecida como HPV9 — representa um salto qualitativo em relação às vacinas anteriores. Enquanto a vacina quadrivalente (HPV4, disponível no SUS) oferece proteção contra 4 tipos virais (6, 11, 16 e 18), a HPV9 adiciona mais 5 tipos de alto risco: 31, 33, 45, 52 e 58. Com isso, a cobertura preventiva salta de 70% para aproximadamente 90% dos cânceres de colo do útero — e oferece proteção robusta também contra os cânceres de orofaringe, vagina, vulva, canal anal e pênis.
No que se refere especificamente à orofaringe, os dados são expressivos: a vacina HPV9 reduz em aproximadamente 80% a probabilidade de infecção oral pelo HPV-16, o principal responsável pelos tumores dessa região. Isso significa que uma dose de vacina aplicada antes da exposição pode, décadas adiante, evitar um diagnóstico de câncer de garganta.
Quem deve se vacinar?
O protocolo multidisciplinar publicado em 2026 estabelece recomendações claras por faixa etária e perfil de risco:
Crianças e adolescentes de 9 a 14 anos
Essa é a prioridade absoluta. A vacinação antes do início da vida sexual garante o máximo de proteção, pois o organismo ainda não foi exposto ao vírus. O esquema é de 2 doses. No SUS, a vacina está disponível gratuitamente para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos.
Jovens de 15 a 26 anos
Ainda há benefício significativo nessa faixa etária, mesmo que a pessoa já tenha iniciado a vida sexual. É improvável que já tenha sido exposta a todos os tipos virais cobertos pela vacina. O esquema passa a ser de 3 doses (0, 1-2 e 6 meses).
Adultos de 27 a 45 anos
A decisão deve ser individualizada, baseada no risco de novas exposições, histórico de IST e presença de fatores de risco. A vacina HPV9, disponível na rede privada, é a opção de maior espectro e deve ser apresentada pelo médico como uma intervenção preventiva anticâncer — não como uma questão de comportamento sexual.
Grupos de maior vulnerabilidade
Independentemente da faixa etária, o protocolo recomenda vacinação prioritária para pessoas vivendo com HIV, mulheres trans, usuários de PrEP com múltiplos parceiros, receptores de transplantes e pacientes com diagnóstico de lesões HPV em outros sítios, como vulva ou colo uterino. Imunocomprometidos devem receber obrigatoriamente o esquema de 3 doses.
E quem já teve diagnóstico de lesão HPV ou câncer?
Essa é uma questão frequente e importante. A vacina não tem efeito terapêutico sobre lesões já estabelecidas — ela não trata o que já existe. Porém, em pessoas com diagnóstico de condiloma, lesões precursoras ou mesmo câncer, a vacinação pode ser indicada para proteção contra os genótipos ainda não adquiridos, reduzindo o risco de novas infecções e, potencialmente, de recidivas.
Em adultos com doença neoplásica de orofaringe, a decisão deve ser discutida individualmente com o cirurgião de cabeça e pescoço. A abordagem deve ser sempre propositiva, não estigmatizante — focando exclusivamente na prevenção do câncer.
Como falar sobre HPV sem estigma
Um dos maiores obstáculos à vacinação — especialmente entre homens e pais de meninos — é o estigma associado ao HPV como uma infecção sexualmente transmissível. Parte da hesitação vacinal vem do desconforto em associar a vacina ao comportamento sexual dos filhos ou à própria vida íntima.
O protocolo é enfático nesse ponto: a comunicação deve ser ativa, não estigmatizante, desvinculando a vacina de comportamentos sexuais e focando estritamente na prevenção do câncer. O HPV deve ser apresentado da mesma forma que apresentamos outros agentes causadores de câncer — como o tabaco e o álcool no câncer de laringe, por exemplo. É um fator de risco que pode ser prevenido. Ponto.
Vacinar o seu filho contra o HPV não é uma conversa sobre sexo. É uma conversa sobre câncer. E sobre prevenção.
O papel do cirurgião de cabeça e pescoço nessa conversa
Como especialista na região mais afetada pelo HPV fora do trato genital, o cirurgião de cabeça e pescoço ocupa uma posição única nessa batalha preventiva. Enquanto a maioria das discussões sobre HPV gira em torno do colo do útero — e envolve ginecologistas —, o câncer de orofaringe HPV-relacionado é um tema que pertence à cabeça e pescoço.
Isso significa que você, como paciente ou familiar, pode e deve conversar sobre vacinação HPV com o seu cirurgião de cabeça e pescoço. Especialmente se você é homem, se tem histórico de tabagismo e etilismo — que potencializam o risco —, ou se já teve qualquer diagnóstico relacionado ao HPV em outros sítios.
A mensagem final é simples: o câncer de orofaringe por HPV é prevenível. A vacina existe, é segura, é eficaz e seu impacto pode ser transformador — individual e coletivamente. Não espere ter um sintoma para agir. Aja antes que o vírus aja.
