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Síndrome de Eagle: o que é, por que é tão difícil de diagnosticar e quem deve suspeitar

Temo de leitura: 5 minutes.
Atualizado em: 10/08/2026.

Dor de garganta que não melhora com antibiótico. Sensação de corpo estranho engasgado na garganta. Dor no pescoço ou no ouvido que piora ao engolir ou ao virar a cabeça. Dor de cabeça unilateral persistente. Se você foi de médico em médico sem diagnóstico claro, tratou refluxo, ATM, enxaqueca e nada resolveu, existe uma condição rara que pode explicar tudo isso: a Síndrome de Eagle.

A Síndrome de Eagle é provavelmente uma das condições mais subdiagnosticadas em toda a medicina. Não porque seja extremamente rara, mas porque seus sintomas imitam perfeitamente dezenas de outras doenças muito mais comuns, e porque a maioria dos profissionais de saúde não a considera no diagnóstico diferencial. Neste artigo, vou explicar o que é essa síndrome, por que ela é tão difícil de identificar e como o diagnóstico correto pode ser finalmente feito.

O que é a Síndrome de Eagle?

A Síndrome de Eagle é uma condição anatômica na qual o processo estiloide, uma estrutura óssea pontiaguda localizada na base do crânio, abaixo do ouvido, está anormalmente alongado ou o ligamento estilo-hioideo que parte dele está calcificado. Normalmente, o processo estiloide mede entre 2 e 3 centímetros. Quando ultrapassa os 3 centímetros, ou quando o ligamento endurece e calcifica, essas estruturas podem comprimir nervos cranianos, artérias e veias próximas, gerando uma série de sintomas que parecem não ter relação entre si.

A condição foi descrita pelo otorrinolaringologista americano Watt Eagle em 1937. Desde então, acumulou décadas de negligência diagnóstica, sendo frequentemente confundida com neuralgia do glossofaríngeo, disfunção da articulação temporomandibular, enxaqueca, fibromialgia, faringite crônica ou até transtornos de ansiedade.

Quais são os dois tipos clínicos?

Tipo Clássico ou Estiloide

Acontece geralmente após amigdalectomia ou trauma na região da faringe. O tecido cicatricial formado pode estimular o crescimento ou a calcificação do processo estiloide. Os sintomas típicos incluem dor de garganta persistente e unilateral, sensação de corpo estranho na garganta, dor ao engolir, dor irradiada para o ouvido ipsilateral e dificuldade para abrir a boca completamente.

Tipo Carotídeo ou Estilo-Carotídeo

Nesse tipo, a estrutura alongada comprime a artéria carótida interna ou externa, gerando sintomas vasculares: dor pulsátil no pescoço, cefaleia unilateral, alterações visuais transitórias, zumbido pulsátil e, nos casos mais graves, risco de acidente vascular cerebral transitório por compressão ou irritação da parede da carótida. É considerado mais grave e exige investigação prioritária.

Por que é tão difícil de diagnosticar?

Sintomas inespecíficos que imitam condições muito mais comuns

Dor de garganta, dor de ouvido e dor de cabeça são três dos sintomas mais frequentes na prática médica. Quando um paciente apresenta os três juntos, o raciocínio natural vai para infecção, refluxo, ATM ou enxaqueca, não para uma estrutura óssea anômala no pescoço. Sem manter a Síndrome de Eagle no diagnóstico diferencial, ela simplesmente não é investigada.

Falta de familiaridade dos profissionais de saúde

Muitos médicos completam toda a formação sem ter estudado ou atendido um caso de Síndrome de Eagle. A condição não faz parte dos diagnósticos rotineiros ensinados nas faculdades de medicina, o que contribui para que seja desconsiderada mesmo quando o quadro clínico é compatível.

Exames de rotina são negativos

Exames de sangue, endoscopia digestiva, eletroencefalograma e ressonância magnética do encéfalo frequentemente voltam normais. Isso pode reforçar a hipótese de que é algo funcional, quando na verdade o problema está em uma estrutura que simplesmente não foi pesquisada.

O diagnóstico requer exame de imagem específico

A Síndrome de Eagle não aparece em uma ressonância magnética convencional do crânio. O exame de escolha é a tomografia computadorizada com reconstrução tridimensional da base do crânio e do pescoço, que permite visualizar claramente o comprimento e a angulação do processo estiloide e o grau de calcificação do ligamento estilo-hioideo. Sem solicitar especificamente esse exame, o diagnóstico não é feito.

Quem tem mais risco de desenvolver a Síndrome de Eagle?

  • Pessoas submetidas a amigdalectomia, especialmente quando a cirurgia ocorreu há muitos anos
  • Pacientes com histórico de trauma no pescoço ou na região da faringe
  • Adultos entre 30 e 60 anos, faixa de maior incidência
  • Mulheres são ligeiramente mais afetadas que homens, segundo estudos
  • Pessoas com alterações anatômicas hereditárias da base do crânio

Vale ressaltar que uma parcela considerável da população tem o processo estiloide alongado, mas permanece completamente assintomática. A síndrome ocorre quando esse alongamento comprime estruturas sensíveis próximas. Portanto, encontrar processo estiloide longo no exame de imagem não significa automaticamente diagnóstico de Síndrome de Eagle, se não houver sintomas compatíveis.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico e radiológico, e requer um especialista que conheça a condição. A avaliação começa pela anamnese detalhada, com atenção ao padrão dos sintomas, à localização, à unilateralidade e à presença de fatores desencadeantes. O exame físico pode incluir a palpação da fossa tonsilar, onde o processo estiloide pode ser sentido com o dedo na parte posterior da garganta. Em alguns casos, a infiltração de anestésico local nessa região, com alívio temporário dos sintomas, serve como teste diagnóstico complementar.

A tomografia computadorizada com reconstrução em três dimensões é o exame padrão-ouro para confirmar o diagnóstico, medir o comprimento do processo estiloide e planejar a abordagem cirúrgica quando indicada.

Qual é o especialista indicado?

O cirurgião de cabeça e pescoço é o especialista mais habilitado para diagnosticar e tratar a Síndrome de Eagle. Essa especialidade reúne o conhecimento anatômico profundo da região, a familiaridade com os exames de imagem específicos e a experiência cirúrgica necessária para a estiloidectomia quando indicada.

Se você se identifica com os sintomas descritos neste artigo, especialmente se já passou por múltiplas especialidades sem diagnóstico, leve essa possibilidade para a consulta com um cirurgião de cabeça e pescoço. Um exame de imagem direcionado pode, finalmente, dar nome ao que você está sentindo há anos.

Dra.Adriana Brasil

CRM 87876-SP

Cirurgiã de Cabeça e Pescoço RQE nº 22482 e Cirurgiã Oncológica RQE nº 122146.
Formada em Medicina pela UNICAMP, com especialização em cirurgia oncológica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), com mais de 25 anos de experiência.

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