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Disfagia após câncer de cabeça e pescoço / Dificuldade para engolir após tratamento de câncer de cabeça e pescoço: o que fazer

Temo de leitura: 5 minutes.
Atualizado em: 22/06/2026.

O tratamento do câncer de cabeça e pescoço, seja por cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou a combinação dessas modalidades, é frequentemente bem-sucedido em controlar a doença. Mas, para muitos pacientes, a vitória sobre o câncer traz um desafio que pode passar despercebido na alegria do diagnóstico de cura: a dificuldade persistente para engolir, conhecida tecnicamente como disfagia após câncer de cabeça e pescoço

A disfagia pós-tratamento oncológico é uma das sequelas mais comuns e mais impactantes na qualidade de vida dos pacientes tratados por tumores de boca, faringe e laringe. A boa notícia é que existe um caminho estruturado de reabilitação que pode trazer melhora significativa, e às vezes recuperação completa, da capacidade de se alimentar com segurança e prazer.

Por que a disfagia acontece após o tratamento oncológico?

A deglutição é um processo complexo, que envolve a coordenação precisa de mais de 30 pares de músculos e diversos nervos, organizando a passagem segura do alimento da boca até o esôfago, sem que ele entre nas vias respiratórias. Qualquer tratamento que afete as estruturas ou os nervos envolvidos nesse processo pode comprometer a deglutição.

Efeitos da cirurgia

A remoção cirúrgica de tumores de língua, assoalho da boca, faringe ou laringe pode alterar a anatomia normal dessas estruturas, reduzindo a capacidade de propulsionar o alimento, de proteger a via aérea durante a deglutição, ou de coordenar adequadamente as diferentes fases do processo. A extensão da disfagia, em geral, é proporcional à extensão da cirurgia.

Efeitos da radioterapia

A radioterapia, mesmo quando extremamente eficaz no controle do tumor, causa efeitos nos tecidos saudáveis ao redor da área tratada. No curto prazo, pode causar mucosite (inflamação dolorosa da mucosa) e edema, dificultando temporariamente a deglutição. No longo prazo, pode causar fibrose (endurecimento progressivo dos tecidos e músculos), redução da mobilidade da laringe e da faringe, e redução da produção de saliva (xerostomia), que, juntas, comprometem a deglutição de forma mais duradoura.

Efeitos combinados

Quando cirurgia e radioterapia são combinadas, ou quando há radioquimioterapia concomitante, os efeitos sobre a deglutição tendem a ser mais acentuados, exigindo um programa de reabilitação mais estruturado e, frequentemente, de mais longo prazo.

Quais são os sinais de que a disfagia precisa de atenção?

  • Engasgos frequentes durante as refeições, mesmo com alimentos que antes eram fáceis de engolir
  • Tosse durante ou após comer ou beber, sinal de que parte do alimento ou líquido está entrando nas vias aéreas (aspiração)
  • Sensação de alimento parado ou “empacado” na garganta
  • Necessidade de engolir várias vezes para a mesma porção de alimento
  • Perda de peso não intencional, refletindo redução da ingestão alimentar por medo ou dificuldade
  • Pneumonias recorrentes, que podem ser causadas por aspiração silenciosa (sem tosse perceptível) de alimento ou saliva para os pulmões
  • Mudança na voz após comer ou beber, sugerindo presença de líquido próximo às pregas vocais
  • Evitar certos tipos de alimento ou texturas, restringindo progressivamente a dieta

A presença de qualquer um desses sinais, especialmente engasgos frequentes ou pneumonias de repetição, deve motivar avaliação especializada sem demora.

Como é avaliada a disfagia?

A avaliação combina o exame clínico da deglutição, realizado por fonoaudiólogo especializado em disfagia, com exames instrumentais que permitem visualizar diretamente o que acontece durante o ato de engolir:

Videoendoscopia da deglutição (FEES)

Um endoscópio fino é introduzido pelo nariz, permitindo visualizar a faringe e a laringe em tempo real enquanto o paciente engole diferentes consistências de alimento, geralmente coradas para melhor visualização. É um exame rápido, realizado no consultório, sem radiação.

Videofluoroscopia da deglutição

Exame de imagem dinâmico, realizado com contraste radiológico, que documenta todas as fases da deglutição, incluindo a fase oral, faríngea e o início da fase esofágica, permitindo identificar com precisão onde e por que está ocorrendo a dificuldade.

Quais são as estratégias de tratamento e reabilitação?

Terapia fonoaudiológica

É o pilar central da reabilitação da disfagia. O fonoaudiólogo trabalha exercícios específicos para fortalecer a musculatura envolvida na deglutição, técnicas compensatórias (como mudanças de postura da cabeça durante a deglutição) e manobras de proteção das vias aéreas, todas individualizadas conforme o tipo e a gravidade da disfagia identificada nos exames.

Adaptação da dieta

Ajustes na consistência dos alimentos (purês, alimentos macios, líquidos engrossados) podem ser necessários temporária ou permanentemente, conforme a gravidade da disfagia, para garantir que a alimentação seja segura enquanto a reabilitação avança.

Exercícios preventivos durante o tratamento oncológico

Um avanço importante na área é o reconhecimento de que iniciar exercícios de deglutição antes ou durante a radioterapia, de forma preventiva, pode reduzir significativamente a gravidade da disfagia que se desenvolveria posteriormente. Esse conceito, chamado de “prehabilitação”, vem sendo cada vez mais incorporado aos protocolos de tratamento oncológico de cabeça e pescoço.

Suporte nutricional temporário

Em casos de disfagia mais grave, especialmente durante o tratamento oncológico ativo, pode ser necessário suporte nutricional por sonda (nasoenteral ou gastrostomia) para garantir nutrição e hidratação adequadas enquanto a deglutição é reabilitada, sem que isso signifique necessariamente uma condição permanente.

Dilatação esofágica

Em casos de estenose (estreitamento) da faringe ou do esôfago superior, causada por fibrose pós-radioterapia ou pós-cirúrgica, procedimentos de dilatação podem ser indicados para alargar a passagem e melhorar a deglutição.

A recuperação é possível?

Sim, e em muitos casos é significativa. A evolução depende da extensão do tratamento oncológico realizado, do tempo transcorrido desde o tratamento e da consistência no acompanhamento da reabilitação fonoaudiológica. Muitos pacientes recuperam a capacidade de se alimentar por via oral de forma segura e satisfatória, mesmo após tratamentos extensos.

O ponto mais importante é não normalizar a dificuldade para engolir como algo que simplesmente “tem que ser assim depois do tratamento”. A disfagia tem avaliação e tratamento específicos, e buscar essa avaliação precocemente, idealmente assim que os primeiros sinais aparecem, melhora consideravelmente as chances de uma recuperação funcional satisfatória.

Se você passou por tratamento de câncer de cabeça e pescoço e está enfrentando dificuldade para engolir, converse com seu cirurgião de cabeça e pescoço sobre encaminhamento para avaliação fonoaudiológica especializada. Comer com segurança e prazer faz parte da qualidade de vida que você conquistou ao vencer o câncer.

Dra.Adriana Brasil

CRM 87876-SP

Cirurgiã de Cabeça e Pescoço RQE nº 22482 e Cirurgiã Oncológica RQE nº 122146.
Formada em Medicina pela UNICAMP, com especialização em cirurgia oncológica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), com mais de 25 anos de experiência.

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