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Pedra na glândula salivar (sialolitíase): por que dói ao comer e como tratar

Temo de leitura: 5 minutes.
Atualizado em: 22/06/2026.

Você sente um inchaço dolorido abaixo do queixo ou na lateral do rosto, próximo à orelha, que piora justamente quando você começa a comer? Essa dor associada à alimentação é uma das pistas mais características de uma condição chamada sialolitíase, popularmente conhecida como pedra na glândula salivar.

A sialolitíase é a doença mais comum das glândulas salivares, respondendo por boa parte das consultas relacionadas a essas glândulas. Apesar de gerar bastante desconforto, é uma condição com tratamento bem estabelecido e, na maioria dos casos, resultado muito satisfatório. Neste artigo, vou explicar por que ela acontece, por que dói especificamente ao comer e quais são as opções de tratamento disponíveis.

O que é a sialolitíase?

Sialolitíase é a formação de cálculos (pedras) dentro das glândulas salivares ou de seus ductos (canais que levam a saliva até a boca). Esses cálculos são compostos principalmente por carbonato e fosfato de cálcio, misturados a uma matriz orgânica de mucopolissacarídeos e células descamadas.

As glândulas salivares maiores são três pares: parótidas (em frente à orelha), submandibulares (abaixo da mandíbula) e sublinguais (sob a língua). A sialolitíase afeta predominantemente a glândula submandibular, responsável por cerca de 80 a 90% dos casos, seguida pela parótida, com 5 a 20%, e raramente a sublingual.

Por que a glândula submandibular é a mais afetada?

Existem razões anatômicas claras para essa predileção: a saliva da glândula submandibular é mais espessa e viscosa (rica em mucina), comparada à saliva mais fluida e aquosa da parótida. Além disso, o ducto submandibular (ducto de Wharton) tem um trajeto ascendente, contra a gravidade, e seu calibre é mais largo em alguns pontos e mais estreito em outros, criando condições favoráveis para a estagnação salivar e a consequente formação de cálculos.

Por que a dor aparece justamente ao comer?

Esta é a pergunta-chave deste artigo, e a resposta está na fisiologia da salivação. Quando vemos, sentimos o cheiro ou começamos a mastigar um alimento, o cérebro envia um sinal para as glândulas salivares produzirem mais saliva, preparando a digestão. Esse fenômeno é chamado de reflexo salivar.

Se há um cálculo obstruindo, total ou parcialmente, o ducto de uma glândula salivar, a saliva produzida em maior quantidade durante a refeição não consegue fluir normalmente para a boca. Ela se acumula dentro da glândula e do ducto, distendendo a cápsula da glândula e gerando uma dor súbita, em cólica, que tipicamente surge nos primeiros minutos da refeição e pode persistir por até uma a duas horas após terminar de comer, até que o excesso de saliva acumulada seja gradualmente drenado.

Esse padrão de dor relacionada à alimentação, conhecido como cólica salivar, é altamente característico da sialolitíase e ajuda muito no diagnóstico clínico, mesmo antes de qualquer exame de imagem.

Quais são os outros sintomas?

  • Inchaço da glândula afetada, que tipicamente piora durante e logo após as refeições e melhora gradualmente entre elas
  • Dor em cólica, de intensidade variável, na região da glândula comprometida
  • Sensação de gosto desagradável na boca, especialmente quando há infecção associada
  • Vermelhidão, calor e dor mais intensa e constante quando há infecção secundária da glândula (sialoadenite)
  • Febre, em casos de infecção mais significativa
  • Em casos crônicos e recorrentes, a glândula pode ficar persistentemente aumentada, mesmo fora das crises

Como é feito o diagnóstico?

A história clínica, com o padrão característico de dor relacionada à alimentação, já levanta fortemente a suspeita. O exame físico, com palpação da glândula e do trajeto do ducto, muitas vezes na própria boca, pode identificar o cálculo quando ele está em posição mais anterior e acessível.

Exames de imagem confirmam o diagnóstico e localizam precisamente o cálculo:

  • Ultrassonografia: exame de primeira escolha, não invasivo, identifica a maioria dos cálculos e avalia a dilatação do ducto e o estado da glândula
  • Tomografia computadorizada sem contraste: tem alta sensibilidade para identificar cálculos, mesmo os pequenos, e é especialmente útil quando o ultrassom é inconclusivo
  • Sialografia: exame que utiliza contraste injetado no ducto salivar para mapear toda a árvore ductal, hoje menos utilizado, mas ainda valioso em casos selecionados
  • Sialoendoscopia diagnóstica: procedimento que permite visualizar diretamente o interior do ducto com um endoscópio fino, sendo tanto diagnóstico quanto terapêutico

Quais são as opções de tratamento?

Medidas conservadoras

Para cálculos pequenos, especialmente os localizados na porção mais anterior do ducto, medidas simples podem ser suficientes: hidratação abundante, massagem da glândula em direção à abertura do ducto, aplicação de calor local, sialogogos (substâncias que estimulam a salivação, como balas ácidas ou gotas de limão) para favorecer a expulsão espontânea do cálculo, e anti-inflamatórios para controle da dor.

Remoção transoral do cálculo

Cálculos localizados na porção distal (mais próxima da abertura na boca) do ducto submandibular podem ser removidos diretamente pela boca, sob anestesia local, através de uma pequena incisão na mucosa sobre o ducto. É um procedimento ambulatorial rápido e com excelente resultado.

Sialoendoscopia

Técnica minimamente invasiva que utiliza endoscópios extremamente finos, introduzidos pela própria abertura natural do ducto salivar, permitindo visualizar e remover cálculos sem necessidade de incisões externas. É hoje considerada a abordagem de escolha para muitos casos, preservando a glândula e sua função.

Litotripsia extracorpórea

Em casos selecionados, ondas de choque podem ser utilizadas para fragmentar cálculos maiores, facilitando sua remoção posterior, seja espontânea ou por sialoendoscopia.

Remoção cirúrgica da glândula (sialoadenectomia)

Reservada para casos de cálculos muito grandes, glândula cronicamente lesada com episódios recorrentes de infecção e falha de outras abordagens conservadoras, ou quando o cálculo está em localização inacessível por técnicas menos invasivas. A remoção da glândula submandibular é um procedimento bem estabelecido, com recuperação relativamente rápida.

É possível prevenir novos cálculos?

Embora não exista uma forma garantida de prevenir completamente a formação de novos cálculos, algumas medidas reduzem o risco: manter boa hidratação ao longo do dia, evitar longos períodos sem se alimentar (já que a mastigação estimula o fluxo salivar e ajuda a prevenir a estase), e tratar prontamente qualquer episódio de inchaço ou dor salivar para evitar cronificação.

Se você sente dor que aparece especificamente ao comer, associada a inchaço na região da mandíbula ou do rosto, a sialolitíase é uma das explicações mais prováveis. A boa notícia é que, hoje, com técnicas modernas como a sialoendoscopia, a maioria dos casos pode ser resolvida preservando a glândula salivar e sua função.

Dra.Adriana Brasil

CRM 87876-SP

Cirurgiã de Cabeça e Pescoço RQE nº 22482 e Cirurgiã Oncológica RQE nº 122146.
Formada em Medicina pela UNICAMP, com especialização em cirurgia oncológica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), com mais de 25 anos de experiência.

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