Cansaço que não melhora com o sono. Ganho de peso mesmo sem mudar a alimentação. Pele seca, queda de cabelo, frio constante e uma sensação geral de que o corpo está mais lento do que deveria. Se esses sintomas combinam com o que você vem sentindo, e especialmente se você é mulher entre 30 e 50 anos, há uma possibilidade real de que a causa seja a tireoidite de Hashimoto, a doença autoimune da tireoide mais comum no Brasil e no mundo.
A tireoidite de Hashimoto é, hoje, a principal causa de hipotireoidismo em países com suficiência de iodo, como o Brasil. Apesar de tão frequente, ainda gera muitas dúvidas sobre seu diagnóstico e tratamento. Neste artigo, vou explicar o que é essa doença, como reconhecê-la e quais são as opções de tratamento disponíveis.
O que é a tireoidite de Hashimoto?
A tireoidite de Hashimoto é uma doença autoimune crônica, na qual o sistema imunológico produz anticorpos que atacam progressivamente o tecido da própria tireoide. Esse ataque crônico causa inflamação persistente da glândula, levando, ao longo do tempo, à destruição progressiva das células produtoras de hormônio tireoidiano.
O nome da doença homenageia o médico japonês Hakaru Hashimoto, que descreveu a condição em 1912. É considerada uma doença autoimune órgão-específica, ou seja, o ataque do sistema imunológico é direcionado especificamente contra a tireoide, embora possa coexistir com outras doenças autoimunes em algumas pessoas, como vitiligo, diabetes tipo 1 e doença celíaca.
Por que a tireoidite de Hashimoto acontece?
A causa exata ainda não é completamente compreendida, mas sabe-se que resulta da combinação de predisposição genética com fatores ambientais desencadeantes. Os principais fatores associados incluem:
- Histórico familiar: ter parentes de primeiro grau com doença tireoidiana autoimune aumenta significativamente o risco
- Sexo feminino: mulheres são afetadas de 5 a 10 vezes mais que homens, possivelmente por influência hormonal e fatores genéticos ligados ao cromossomo X
- Gravidez e pós-parto: o sistema imunológico passa por ajustes importantes nesse período, podendo desencadear ou agravar a doença
- Excesso de iodo: paradoxalmente, tanto a deficiência quanto o excesso de iodo podem estar associados a maior risco em pessoas predispostas
- Estresse, infecções virais e tabagismo: fatores ambientais que podem atuar como gatilhos em pessoas geneticamente predispostas
Quais são os sintomas?
Os sintomas da tireoidite de Hashimoto são, na maioria dos casos, os sintomas do hipotireoidismo, já que a destruição progressiva da glândula leva à queda da produção hormonal. A intensidade varia muito entre as pessoas e depende do estágio da doença:
- Fadiga persistente e sensação de cansaço, mesmo após repouso adequado
- Ganho de peso, mesmo sem mudanças significativas na alimentação
- Intolerância ao frio
- Pele seca e áspera
- Queda de cabelo, incluindo a porção lateral das sobrancelhas
- Constipação intestinal
- Unhas fracas e quebradiças
- Inchaço no rosto, especialmente ao redor dos olhos
- Rouquidão
- Dificuldade de concentração e memória, frequentemente descrita como “névoa mental”
- Humor deprimido
- Irregularidades menstruais e dificuldade para engravidar
- Aumento do volume do pescoço (bócio), em algumas fases da doença
Vale destacar que, em fases iniciais ou em alguns subtipos da doença, pode haver um período transitório de hipertireoidismo (chamado hashitoxicose), com sintomas opostos como palpitações, ansiedade e perda de peso, antes de evoluir para o hipotireoidismo definitivo.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico combina avaliação clínica, exames de sangue e, frequentemente, ultrassonografia:
Exames de sangue
- TSH: geralmente elevado, indicando que a hipófise está “tentando” estimular uma tireoide que produz hormônio de forma insuficiente
- T4 livre: pode estar normal nas fases iniciais (hipotireoidismo subclínico) ou reduzido nas fases mais avançadas
- Anticorpos anti-TPO (antiperoxidase tireoidiana) e anti-tireoglobulina: elevados na maioria dos pacientes com Hashimoto, sendo o anti-TPO o mais sensível e mais utilizado para confirmação diagnóstica
Ultrassonografia da tireoide
Tipicamente mostra uma glândula com textura heterogênea, hipoecogenicidade difusa (aparência mais escura que o normal) e, eventualmente, pequenos nódulos. A ultrassonografia também é importante para identificar e acompanhar nódulos coexistentes, já que pacientes com Hashimoto podem desenvolver nódulos tireoidianos que precisam de avaliação própria, incluindo eventual PAAF.
A tireoidite de Hashimoto pode causar câncer de tireoide?
Esta é uma dúvida frequente. A tireoidite de Hashimoto, por si só, não é considerada uma lesão pré-maligna na maioria dos casos. Porém, existe uma associação reconhecida entre Hashimoto e um tipo específico e raro de câncer chamado linfoma de tireoide, além de uma possível associação discutida na literatura com o carcinoma papilífero de tireoide, embora essa relação ainda gere debate científico.
Na prática clínica, isso significa que pacientes com Hashimoto que desenvolvem nódulos tireoidianos devem ter esses nódulos avaliados pelos mesmos critérios (ultrassonografia com TI-RADS e, quando indicado, PAAF) aplicados a qualquer outro paciente, sem que o diagnóstico de Hashimoto, isoladamente, mude a abordagem dos nódulos.
Como é o tratamento?
O tratamento da tireoidite de Hashimoto, quando já há hipotireoidismo estabelecido, é a reposição hormonal com levotiroxina, da mesma forma que ocorre após a remoção cirúrgica da tireoide. A dose é ajustada conforme os níveis de TSH, com reavaliação a cada 6 a 8 semanas após qualquer mudança.
Para pacientes com hipotireoidismo subclínico (TSH levemente elevado, mas T4 livre ainda normal), a decisão de iniciar tratamento é individualizada, considerando idade, sintomas, presença de anticorpos elevados, desejo de gravidez e outros fatores de risco cardiovascular.
Não existe, até o momento, tratamento que reverta ou interrompa definitivamente o processo autoimune em si. O foco do tratamento é compensar a função hormonal perdida e monitorar a evolução da doença e de eventuais nódulos associados ao longo do tempo.
Convivendo bem com Hashimoto
Com o diagnóstico correto e a reposição hormonal bem ajustada, a esmagadora maioria das pessoas com tireoidite de Hashimoto leva uma vida completamente normal. O acompanhamento regular com exames de sangue e, quando indicado, ultrassonografia da tireoide, garante que tanto a função hormonal quanto a estrutura da glândula sejam monitoradas adequadamente ao longo dos anos.
Se você se identificou com os sintomas descritos neste artigo, o caminho mais direto é uma consulta médica com solicitação de TSH, T4 livre e anti-TPO. É um exame simples que pode trazer respostas claras para sintomas que, por muito tempo, podem ter sido atribuídos apenas a “estresse” ou “rotina cansativa”.
